Sobre o autor:
Ricardo Bellei reside em Pato Branco - Paraná, e é professor de Matemática.
Prólogo
Vigiai, pois, porque não sabeis o dia em que vosso Senhor virá. (Mt, 24, 42).
Ricardo Bellei reside em Pato Branco - Paraná, e é professor de Matemática.
Prólogo
Vigiai, pois, porque não sabeis o dia em que vosso Senhor virá. (Mt, 24, 42).
-O profe Ricardo morreu!
-Que é isso menino? Que brincadeira é essa?
Mas era verdade. O professor Ricardo havia morrido.
No dia em que morri fazia um calor terrível. Mas isto, meus amigos, não tem nenhuma importância. Também não tem importância o fato de que eu estava de jaleco branco e azul; tampouco que eu estava de mau-humor. Muito menos que meu estômago estava doendo. Eu morri.
Lembro que estava resolvendo um exercício de logaritmo e, repentinamente, senti uma forte náusea. Num gesto instintivo, fechei os olhos e massageei o ventre. Ao abrir os olhos, a dor que sempre me acompanhou havia desaparecido completamente. Suspirei profundamente. Virei-me para os alunos na intenção de continuar a aula (pois quase todos os professores de matemática lecionam como os padres de antigamente: de costas para o povo e falando uma linguagem obscura e incompreensível) e o mais interessante foi ver uma multidão de pessoas gritando e amontoando-se ao redor de um corpo que jazia inerte sobre o tablado: no caso, o corpo era o meu.
De fato, eu havia morrido.
Não fiz drama. Estava tudo acabado mesmo. “La commedia è finita”, diz a última fala do palhaço Canio. De fato, tudo é silêncio. Compreendi o que significa: “deixem os mortos em paz!”, ou também: “Descansem em paz”. Pelo menos não teria que levantar cedo nunca mais. Também não dormiria mais, mas isto não vêm ao caso agora.
Havia muita gente em meu velório. Na verdade, eu não conhecia ninguém. Dizem que quando morremos esquecemos de tudo.
Também não reconheci onde estava o meu corpo. Pensei em meus pais, em minha namorada, em meus amigos, mas enxergava apenas vultos desconexos ao redor de meu já rígido corpo. O mais engraçado, porém, foi perceber que eu podia ouvir e entender tudo o que se dizia. O problema, porém, foi saber e aceitar o quê pensavam e cochichavam sobre mim...
-Que pecado, um rapaz tão novo, tão cheio de vida, tão alegre!
-Alegre nada! Vivia de mau-humor, brigava com todo mundo!
-Que é isso! Ele era uma pessoa íntegra e culta!
-Como? Ele não passava de um falso moralista, um hipócrita!
-Mas ele não vivia na Igreja?
-Sim, mas era só para aparecer!
-Capaz, meu Deus, aonde este mundo vai parar! Não se pode mais confiar em ninguém!
E estes foram os comentários mais leves. Não que eu tenha medo ou vergonha de contá-los agora que estou morto. Apenas acho que não interessaria a ninguém saber que fui um verme. Para início de conversa, inúmeros vermes já haviam começado a devora-me.
A missa estava bonita. Tinha música de órgão, mas foi rezada em português. Em latim elas são mais bonitas e solenes. Mas quem era eu para exigir tanto...
Prestei atenção no corpo que estava no caixão. Certa vez um amigo meu escreveu que o nariz dele era grande. O meu, sinceramente, é imenso. Ou melhor, era.
Havia uma moça que chorava sem parar no cortejo. Não sei quem era, mas era muito bonita.
Após o enterro, pensei em meus livros. O que seria deles? Mas o que importam agora? Estou morto e isto basta.
Comecei a andar sem destino. Desculpem-me. Esqueci que agora não ando e que não há mais destino. Mas sabem de uma coisa? Não preciso mais dar satisfações a ninguém. Estou morto. Falo como quiser! Mas continuarei usando as palavras que conhecia quando estava vivo para não confundir os leitores.
Como ia dizendo, andei sem destino. O estranho é que tudo havia desaparecido: casas, ruas... À minha frente apenas dois bêbados mendigos que remexiam em uns panos sujos e pestilentos. Um deles olhou-me e disse:
-Ei doutor! Você sabe por que as pessoas vão à Igreja?
Tentei responder. Pensei em tudo o que havia estudado e não consegui lembrar-me de nada. Quando não temos os papéis escritos em nossa frente tornamo-nos imbecis.
-Ei doutor, retrucou novamente o bêbado, você sabe por que as pessoas rezam?
Respondi-lhe que não.
No alto de sua sabedoria, o ébrio disse:
-Porque as pessoas têm medo do inferno.
Virei as costas para os dois e continuei andando. Perguntei-me o que dois bêbados faziam em minha morte e porque me questionaram. Ainda absorto em pensamentos, reparei que um leproso apareceu. É estranho como ocorrem coisas estranhas no além túmulo. O dito leproso exalava um cheiro que sequer os mortos agüentam. De sua boca caíam gotas de um prurido fétido e viscoso. Tentei correr. Estava paralisado. Ele então me disse:
-Siga-me Ricardo.
-Como me conhece? Quem é você?
Ele então se aproximou e pude sentir o odor pestilento impregnando-se em mim. Estando a milímetros do meu rosto, disse-me:
-Sou sua alma.
Dizer que quase morri não mais era possível. O pavor tomou conta de mim. A dor voltou. Na verdade, ela era agora pior que quando eu estava vivo. Comecei a chorar amargamente ao ver como era minha alma na verdade: podre, malcheirosa e asquerosa.
O leproso sentou-se ao meu lado e à nossa frente surgiu uma espécie de telão. Compreendi que a hora de meu julgamento havia chegado.
O que comecei a ver na tela foi, nada mais, nada menos, que minha própria vida.
Reconheci os momentos em que fui falso, minha mentiras, minha profunda arrogância, todos os meus medos, meus falsos testemunhos, minha imensa presunção, meu gigantesco orgulho. Vi também, claramente, todos os instantes em que deixei de prestar atenção aos sofrimentos alheios, todas as minhas decisões erradas, todas as palavras ríspidas que disse. Tudo.
Tive certeza absoluta que aquilo tudo – o rever minha vida segundo a segundo – era, verdadeiramente, o inferno. Arder no fogo do inferno torna-se, depois de morto, arder de vergonha pelo amor não praticado. Quando tempo perdi com superficialidades? Quantas mentiras. Eu jamais fiz algo.
Após segundos que pareciam eternos, falei ao leproso:
- Qual o veredito? Qual o castigo?
Sem hesitar, ele disse:
- Culpado, mil vezes culpado. Sem apelação. Seu castigo será ficar aqui, onde estás, parado, observando, revendo sem jamais parar, toda a sua vida. Você está condenado a eternamente ver os seus erros e quais eram os caminhos que você deveria ter seguido.
Um grito de angústia sacudiu todo o meu ser. Subitamente, abri os olhos e percebi que havia apertado o giz com tanta força que o reduzi a pó. Minhas mãos tremiam. Um aluno gritou do fundo da sala:
-O professor não sabe resolver o exercício!
A sala explodiu em risos e gargalhadas.
OBS: O presente conto é dedicado especialmente ao amigo Maurício Vendrusculo, que foi o verdadeiro autor da idéia de Inferno e também aos dois mendigos, que tão cruelmente mostraram a fragilidade de meus conhecimentos. Agradeço também ao amigo Marcos Pizzolatto pelos preciosos comentários referentes ao texto.






